Relações perigosas


Diplomacia, segundo o dicionário Koogan/Houaiss, significa: "Ciência das relações internacionais; Arte de manter o direito e de promover os interesses de um Estado ou governo perante os Estados e governos estrangeiros; fig.: habilidade, astúcia, finura". No Brasil, como na maioria dos outros países, esta função deveria estar a cargo do Ministro das Relações Exteriores, apoiado pelo quadro de funcionários de carreira do Palácio do Itamarati, devendo refletir o pensamento de como nossa Nação deseja se relacionar com seus vizinhos e com os demais, seu posicionamento diante dos conflitos regionais e a defesa firme dos interesses nacionais onde se fizer necessário. O Brasil, por sua índole pacífica e conciliadora, quase sempre se manteve neutro diante dos mais críticos momentos do século XX, buscando se alinhar com os não beligerantes, assinando diversos acordos internacionais entre eles o de não proliferação de armas nucleares, além de viabilizar o caminho da negociação quando intermediando conflitos comerciais ou bélicos entre terceiros países. Mas ultimamente nossa política externa, capitaneada pelo Presidente Lula e seu assessor para assuntos internacionais Marco Aurélio Garcia, "atropelando" o ministro Celso Amorim, tem deixado muito a desejar ou "trocando os pés pelas mãos", como se costuma dizer. Não duvido da boa fé de nosso Presidente, mas ele jamais pode deixar que sua simpatia pessoal por este ou aquele governante, ou sua admiração por esta ou aquela corrente de pensamento coloque em risco nossas relações com países amigos, se sobrepondo aos interesses comerciais da Nação. Recebe uma carta pessoal de Barack Obama e quem responde a mesma é o assessor, demonstrando total desrespeito e falta de senso diplomático. Evo Morales estatiza todas as operações da Petrobrás na Bolívia, com prejuízo de milhões de dólares para os cofres da empresa e totalmente lesivo ao país, e o Presidente simplesmente declara que o pobre povo boliviano precisa ser ajudado e que o preço do gás fornecido ao Brasil deveria ser reajustado. Fernando Lugo em um de seus primeiros pronunciamentos reivindica um reajuste para o preço da energia de Itaipu que compramos do excedente paraguaio e Lula, esquecendo ou desconhecendo que o Paraguai não participou com um centavo sequer na construção da usina hidrelétrica, manda os técnicos estudarem um aumento nas tarifas. Talvez com pena também do pobre povo paraguaio. Não que sejamos a favor de explorar ou saquear nossos vizinhos, absolutamente. O país não pode enriquecer às custas da desgraça alheia, nem ser uma ilha de prosperidade cercada por fome e miséria. Mas todos os acordos comerciais são regidos pela assinatura de contratos bilaterais, com a concordância de ambas as partes sobre os termos e valores neles constantes. Qualquer desacordo ou insatisfação de alguma das partes deve ser solucionado na mesa de negociação ou através dos foros internacionais, como a Corte de Haia e a Organização Mundial do Comércio (OMC). Nunca através de atitudes unilaterais impensadas, meros rompantes populistas, que possam lesar a outra parte sem direito de defesa.


Hugo Chavez, Imperador da Venezuela, desfila sua simpatia pelos quatro cantos do continente extendendo os tentáculos de sua "revolução bolivariana" da Argentina de Cristina Kirchner, passando pela Bolívia de seu colega Evo Morales, subindo para o Equador de seu pupilo Rafael Correa e baixando em plena selva colombiana no seio das FARC. Não satisfeito em seu ego megalomaníaco, gasta bilhões de dólares de uma economia fragilizada em armas russas e transferência de tecnologia nuclear iraniana, pensando talvez em transformar a Venezuela em potência regional e se defender de uma hipotética agressão dos Estados Unidos. E o que fazemos para impedi-lo? Nada. E agindo assim o encorajamos a continuar com suas sandices imperialistas. Temos interesses comerciais relevantes com os venezuelanos sim, até algumas obras em conjunto, mas isto não é salvo conduto para Chavez sair por aí difundindo suas idéias bizarras. Por conta dessa amizade Lula se envolveu em um impasse político em Honduras, acolhendo na embaixada brasileira em Tegucigalpa, o aprendiz de caudilho Manuel Zelaya deposto e expulso do país após "rasgar" a Constituição e tentar implantar um governo ditatorial, envolvendo-se em uma confusão que a maioria dos países preferiu ficar de fora. Ao mesmo tempo que se oferece para mediar as negociações de paz entre árabes e israelenses no Oriente Médio, o Presidente Lula recebe no Palácio do Planalto o líder iraniano Mahmoud Ahmadinejad, pivô de uma crise internacional por conta de sua insistência em manter o programa nuclear iraniano fora do acompanhamento ocidental, gerando dúvidas em seus objetivos, que podem ser tanto para uso pacífico como para fins militares, e que se auto proclama "inimigo nº 1 de Israel" e desafeto confesso dos Estados Unidos. A história da humanidade é a história das guerras. Para tentar mediar ou evitar estes confrontos foi criada, logo após a Primeira Guerra Mundial, a Liga das Nações sendo o Brasil um dos primeiros signatários. Este organismo internacional seria o embrião da Organização das Nações Unidas (ONU). Nas situações mais complicadas a diplomacia brasileira sempre foi chamada a intervir, conciliando interesses e pavimentando soluções pacíficas. Atualmente participamos de inúmeras missões de paz patrocinadas pela ONU, com destaque para nossa atuação no Haiti há cinco anos chefiando a MINUSTAH. Pleiteamos um assento permanente no Conselho de Segurança, hoje formado por Estados Unidos, Rússia, Grã-Bretanha, França e China, numa tentativa de ter uma voz mais ativa nas decisões cruciais da organização. Isto é diplomacia internacional, como dissemos no início é a arte de conciliar interesses, as vezes totalmente antagônicos, de forma civilizada, hábil, imparcial. Esta mesma diplomacia deve nortear a defesa de nossos interesses comerciais no cenário mundial. O Brasil com o crescimento econômico vigoroso dos últimos tempos, suas dimensões geográfica e demográfica e o aumento de seu poder militar, certamente será um dos atores principais do xadrez geopolítico em um futuro próximo. Esta constatação, acrescida pelos conflitos bélicos e as pendências comerciais tão presentes nas relações internacionais de hoje, demandará uma atuação cada vez mais profissional com diplomatas experientes e não mais poderão ser conduzidas por governantes simpáticos e assessores despreparados.

georgeabbud@ig.com.br




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