Tecnologias críticas


Scorpene Conhecimento é poder. Há muito as nações mais ricas do planeta levam esta afirmação a sério, não poupando investimentos no binômio "pesquisa & desenvolvimento" (P&D) ou "research & development" (R&D), nas mais diversas áreas científicas, civis ou militares. Especificamente no campo militar são bilhões de dólares anuais na busca da arma perfeita, que lhe dará superioridade sobre o seu adversário ou o desestimulará a efetuar qualquer ação ofensiva. Somente os Estados Unidos, com orçamento de defesa para 2008 aprovado em cerca de US$ 680 bilhões, destinarão para P&D o montante de US$ 75 bilhões ou mais de 10% do total. França, Grã-Bretanha, Rússia e China, embora em menor porte, também reservam uma boa parte de seus orçamentos para a pesquisa militar. Com valores tão altos em jogo era de se esperar que estes países buscassem proteger essas tecnologias, denominadas críticas ou sensíveis, a sete chaves. Não as vendem, alugam ou repassam, a não ser embutidas nos equipamentos que exportam, sem acesso a códigos-fonte e sem transferência de conhecimentos. Porque dar a outros um poder que lhe custou tão caro, de graça? E se o aliado de hoje se tornar o inimigo de amanhã? Ou vier a copiar e fabricar os mesmos equipamentos, se tornando um concorrente no mercado bélico? E então me pergunto: Por que o Brasil imagina que conseguirá as mais recentes tecnologias, a serem transferidas ao adquirir submarinos, caças e helicópteros no exterior? A assinatura de acordos de aliança estratégica, como o assinado recentemente com a França, não garantem acesso à tecnologias críticas de última geração, por mais boa vontade que demonstre o governo francês em fazê-lo. Poderá no máximo transferir conhecimentos que não colidam com acordos internacionais e de equipamentos que estão saindo de linha no país de origem. Aliás este acordo com a França está provocando a ira de americanos e alemães, que não pretendem assistir de braços cruzados o Brasil comprar caças e submarinos franceses. A Alemanha alega que havíamos prometido comprar submarinos da classe IKL U-214 em troca de investimentos siderúrgicos no país. Os Estados Unidos pelo simples interesse de impedir que tenhamos armas modernas, na região que consideram o seu "quintal". Convidaram o ministro da Defesa Nelson Jobim para uma visita a Washington, segundo eles para conhecer o que os americanos podem oferecer para atender nossas necessidades de reequipamento.

Rafale C Interessante notar que até a assinatura do acordo com a França e a promessa desta de transferir algumas tecnologias ao Brasil, os americanos sempre ignoraram nossos pedidos de aquisição de armas mais avançadas, repassando apenas equipamentos de segunda mão. Quando da análise de propostas do programa FX da FAB, sondados sobre a possibilidade de aquisição de mísseis ar-ar AMRAAM, declararam que o país não necessitava de uma arma tão potente no cenário sul-americano, mesmo argumento utilizado quando tentamos comprar um sensor para o míssil nacional anti-radiação MAR, o que atrasou bastante o seu desenvolvimento. O Departamento de Defesa teve o desplante de dizer que "a tecnologia do míssil anti-radiação excedia a capacidade autorizada para o Brasil". É possível que o ministro Jobim em sua visita a Washington, ao invés de oferta de caças e blindados novos a preços acessíveis no âmbito do programa Foreign Military Sales (FMS), ouça dos seus interlocutores ameaças veladas de sobretaxação na importação de produtos brasileiros, como aviões, máquinas, calçados e suco de laranja, ou mesmo a diminuição da quantidade dessas importações, caso o Brasil avance nas negociações com a França. Vejamos assim: não compram armas nossas, nem vão comprá-las de outros. Manter o "gigante adormecido" é o maior interesse da política americana para a América do Sul, pelo menos onde eles ainda podem interferir. Admitem vender armas avançadas para o Paquistão, Índia, Grécia, Turquia e Arábia Saudita, mesmo que estes um dia se voltem contra eles. Mas para o Brasil não pode e ponto final. A esperança fica por conta desta aliança franco-brasileira, mas devemos analisar seus termos com cautela, para evitar futuras decepções e o desperdício de dinheiro. Sou a favor do desenvolvimento de tecnologia de defesa própria, mas isto requer orçamentos anuais impositivos, sem cortes emergenciais, interação entre centros de pesquisa e indústrias, além de encomendas firmes de nossas Forças Armadas, com perspectivas de exportação, pois caso contrário a intenção ficará no discurso. Há de se ter vontade política para tal, pensar grande, pensar em nossa soberania, não em nossa subserviência.

georgeabbud@ig.com.br


                                 www.militarypower.com.br                                   eXTReMe Tracker
                       A sua revista de assuntos militares na internet