Embora as investigações de ataques anteriores executados
por terroristas árabes contra alvos americanos não tenham
revelado provas do envolvimento direto da Líbia no atentado a bomba
na danceteria La Belle, em Berlim, no dia 5 de abril de 1986, os serviços
de inteligência dos Estados Unidos afirmaram não ter dúvidas
quanto à responsabilidade do regime liderado pelo coronel Muamar
Kadafi. O então presidente americano Ronald Reagan pediu a seus
aliados na Europa que impusessem sanções políticas
e econômicas à Líbia, ao mesmo tempo que ganhava corpo
o planejamento da operação "El Dorado Canyon",
um ataque a Tripoli e Bengazi. Porém o único apoio que obteve
foi da primeira-ministra britânica Margaret Thatcher, que autorizou
o uso das bases em seu país para o lançamento da operação.
Já por volta do dia 9 de abril era frenética a movimentação
de aeronaves da USAF nas bases britânicas de Mildenhall, Fairford
e Lakenheath, onde estavam sendo preparados os caça-bombardeiros
F-111F, os reabastecedores KC-10A Extender e KC-135 Stratotanker, e de
onde partiam diariamente aeronaves de reconhecimento RC-135, aviões-espiões
SR-71A e U-2R, que fariam o levantamento de todas as informações
necessárias para o planejamento da missão. Ao mesmo tempo,
os porta-aviões America e Coral Sea estavam posicionados
no Mediterrâneo, a noroeste da costa líbia, com seus caças
F-18A Hornet e F-14A Tomcat prontos para a ação. Às
17:45h do dia 14 de abril, seis KC-135 decolaram de Mildenhall, seguidos
por dez KC-10A, enquanto os primeiros de 24 caças F-111F ligavam
seus pós-combustores e decolavam de Lakenheath. Por volta de 21:00h,
o grupo principal composto de caças-bombardeiros, reabastecedores
e aviões de apoio eletrônico e escolta, estava voando rumo
a seu objetivo. A proibição de sobrevoar o território
espanhol e francês, obrigou o grupo a fazer uma volta, contornando
a Baía de Biscaia e o lado atlântico da Península
Ibérica, antes de dobrar a leste e entrar no Mediterrâneo
através do Estreito de Gibraltar. Ao longo de todo o trajeto foram
estabelecidos quatro pontos de reabastecimento aéreo com ordens
de silêncio rádio. Para a US Navy as coisas foram um pouco
menos complicadas e às 22:00h foi dado o sinal para lançamento
dos primeiros aviões no Coral Sea, entre eles seis F-18A
Hornet, oito A-6E Intruder, várias aeronaves de apoio como
o F-14A Tomcat para escolta,
EA-6B Prowler para tarefas de interferência em radares e E-2C Hawkeye
na função AEW. A bordo do America a sequência
de lançamentos foi semelhante. A aviação naval ficaria
responsável por ataques a alvos em Bengazi e a neutralização
das bases de mísseis anti-aéreos SAM líbios.
Os ataques coordenados às duas cidades líbias começaram
às 23:54h, quando caças F-18A lançaram seus primeiros
mísseis anti-radiação
HARM contra bases SAM e estações de radar que defendiam
Bengazi. Ao mesmo tempo, três F-111A começaram a interferir
nas frequências da defesa nas vizinhanças da capital Tripoli,
que estava totalmente iluminada, pois os líbios haviam sido pegos
de surpresa. Minutos depois, dezoito caças F-111F cruzaram a linha
a costa líbia a cerca de 60 metros de altitude, quando então
se dividiram em três grupos, dois viraram para a esquerda e dirigiram-se
para a base naval de Sidi Bilal e para o quartel de Azízia, onde
Kadafi morava, e o terceiro grupo continuou rumo sul visando o aeroporto
militar da capital. Rumando para os objetivos selecionados, os dois primeiros
grupos de aviões rapidamente ascenderam a 150 metros para possibilitar
a aquisição e marcação do alvo. Por problemas
nos designadores a laser ou infravermelho, apenas oito F-111F efetuaram
ataques únicos em baixa altitude, lançando sua carga mortal
de quatro bombas
guiadas a laser Paveway, de 907 kg cada, antes de evadir rumo ao norte
em direção ao ponto de encontro combinado com o outro grupo
de F-111F, sobre o Mediterrâneo. Este último, havia atacado
o aeroporto militar destruindo dois aviões de transporte Ilyushin
Il-76. A USAF sofreu a perda de uma aeronave F-111F e sua tripulação,
provavelmente por falha em seus sistemas de bordo, supondo-se que tenham
caído no mar. Uma longa busca foi conduzida na manhã seguinte,
mas não foi encontrado nenhum sinal. Enquanto a USAF cumpria sua
missão, a US Navy eliminara as ameaças dos SAM e dos radares
com mísseis HARM e Shrike. Um intenso mas inútil fogo de
artilharia anti-aérea foi dirigido contra as aeronaves da Marinha,
não impedindo que a base aérea de Benina, em Bengazi, fosse
atacada com sucesso, sem que houvesse tentativa de decolagem dos interceptadores
Mig-23. Pelo menos quatro
Mig foram destruídos, além de dois helicópteros Mil
Mi-8 e um transporte Fokker F.27, com várias outras aeronaves sendo
severamente danificadas. Por volta de 00:13h todas as aeronaves da Marinha
já estavam ao largo da costa líbia, rumando para seus respectivos
porta-aviões. As informações e imagens obtidas por
vôos de reconhecimento dos SR-71, horas depois do ataque, confirmaram
que os cinco objetivos principais da operação "El Dorado
Canyon" haviam sido atingidos e que danos consideráveis tinham
sido provocados. Áreas civis também tinham sido atingidas,
segundo os americanos por engano, mas em termos gerais a missão
foi vista como bem sucedida. Muitas ameaças de retaliação
vieram do governo líbio, mas o próprio Kadafi não
aparecia em público, fazendo crescer os rumores de que ele havia
sido morto no ataque a seu quartel-general em Azízia, onde na realidade
perdera a vida sua filha de apenas 16 anos. Fontes em Washington jamais
confirmaram que o objetivo da missão era eliminar o líder
líbio. Kadafi ainda hoje permanece no poder. |